Cartas transatlânticas

Illustration: Bianca Casco

 

Denna text är publicerad på svenska i Brand #4 2020. Den portugisiska originaltexten publiceras här.

 

Querida Amanda!

Agora passaram oito meses desde que falamos sobre a pandemia a primeira vez. Eu em Estocolmo, e você no Rio de Janeiro. Um oceano enorme entre a gente. Você está morando na mesma rua onde eu morava, mas imagino que a rua mudou com a pandemia. Tudo mudou, na verdade. Estamos atravessando uma crise existencial mundial, e não faço ideia como e quando isto vai terminar.

É difícil imaginar meu amado Rio de Janeiro baixo o impacto da pandemia, mas tal vez parece um pouco o clima do Centro os domingos de tarde, aquele vibe meio esquisito com ruas vazias e a sensação que ninguém te ia ouvir ou ajudar se algo acontecesse? Essa é a única imagem que eu tenho para comparar.

Eu aqui na Suécia acho que estou bastante bem em comparação com muitos outros lugares no mundo neste momento. Agradeço a Deus todos os dias que já fui contagiada pelo vírus de Covid-19 e agora tenho anticorpos, e também o fato que eu tenho um trabalho fixo – pela primeira vez na minha vida. Fui contratada pela organização aonde trabalho em novembro 2019, e a pandemia começou em março 2020. Se não tivesse este trabalho estaria na merda agora, num abismo econômico brutal. Ser freelance na área de cultura e jornalismo agora seria terrível.

Você, como professora no sistema de educação pública, já está vivendo deterioração econômica em relação á seu salário?

Como você percebe a crise da pandemia na vida dos seus alunos e alunas?

Como te falei ainda não fui afetada economicamente pela crise, mas muitas outras coisas mudaram. Minhas relações interpessoais por exemplo.

Sobre tudo amigos, amigas, familiares e ex-namorados que moram nos outros lugares que eu considero casa; Argentina, Brasil e Cuba.

Me sinto muito mais longe de vocês agora, por mais que a gente compartilha o mesmo vírus e a mesma pandemia. Me gera angustia quando penso na impossibilidade de viajar, de cruzar o Atlântico, de sentir o calor e abraçar umas das pessoas mais importantes da minha vida.

Quando vou poder fazer isso? Como vai ser isso?

Ninguém sabe.

Beijos e abraços

Clarinha

Estocolmo 20 de outubro 2020

 

Querida Clara,

Que bom receber notícias suas e poder compartilhar alguns pensamentos sobre o impensável que há pouco menos de um ano atrás nos abateu.

É interessante repensar no tempo em que as notícias da China começaram a chegar no Brasil, o quanto era impossível tomarmos algum tipo de consciência do que estava por vir.

Somos um país de catarse. O carnaval funciona como uma tentativa coletiva de organização do caos subjetivo do brasileiro, na esperança de seguir sobrevivendo. Mas os símbolos aos quais nos apegamos, corporificando nossa formação colonial católica estão obsoletos e o caos existencial é intenso.

Para mim, a necessidade de laço afetivo e gozo é um apelo muito forte, e olha que nos últimos anos eu tenho repetido “não estou muito animada para o carnaval”, depois acabo bêbada do meio da multidão suportando um calor de mais de 40º fazendo a minha catarse íntima.

Pensar a heterocronia do carnaval é absolutamente estranho, e eu estou falando desse tema porque com certeza em fevereiro o vírus já estava circulando entre nós e não sabíamos. No tanto que, uma das chacotas do carnaval era que “nós brasileiros iríamos sentir o coronavírus como cócegas”. Fazia-se piada com a pandemia e hoje temos mais de 159.668 mil mortos segundo o governo brasileiro, mas no Brasil não é possível confiar nos dados oficiais porque nem todas as mortes por Covid-19 são contabilizadas.

Faz alguns dias que li uma matéria sobre a proposição de uma outra nomenclatura para o que estamos vivendo, o que para mim faz muito sentido, a perspectiva de que estamos vivendo uma “sindemia”, quando duas doenças funcionam juntas potencializando uma a outra, ou seja, no Brasil, onde a população empobrecida sente no corpo de saúde precarizada a desigualdade social que faz do novo coronavírus mais grave e letal. E isso diz muito sobre o Sul global, não é amiga?

Eu, enquanto servidora pública tenho muitos privilégios. Estou trabalhando em casa desde o início das medidas de isolamento, mas o sistema de educação que serve a economia vem sendo pressionado pelo governo para que haja um retorno das atividades presenciais, para que os pais também possam retornar a trabalhar.O retorno das atividades seria importante também para a educação privada que sofre uma crise com as famílias retirando seus filhos das escolas particulares e matriculando-os no sistema público, tendo em vista que o ônus que recaiu sobre as famílias de classe média também não é pequeno.

Já a clientela habitual do sistema público de educação está em uma situação calamitosa desde então. A educação no Brasil é uma peça fundamental no sistema de proteção de direitos fundamentais da criança e do adolescente, e ainda que funcionando mal, é uma conquista macropolítica importante para a sociedade. Portanto, o que posso te dizer é que as notícias são desde um aumento nos casos de violência doméstica contra a mulher e contra crianças e adolescentes até o aumento ou agravamento de doenças mentais e tentativa ou cometimento de suicídio.

E sobre esse tema, adoecimento e morte, quando pensadas dentro da realidade de indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pequenos agricultores, somando-se a crise ambiental que se agrava no Brasil, o cenário é de genocídio.

Essa crise climática que enfrentamos globalmente, que inclusive produz o desequilíbrio que culmina em pandemias como essa que estamos vivendo, é vivenciada de forma corporal por essas populações que estão perdendo tudo.

Para mim nunca foi muito fácil cruzar o Atlântico, o dólar hoje nos custa mais de 5 reais, o salário mínimo aqui é 185 dólares! Portanto, mesmo possuindo um cobiçado passaporte europeu, eu não alcançaria viajar para o Norte global, a não ser à trabalho, porque eu preciso pagar boletos…

Eu entendo seu sentimento, um misto de saudade de pessoas queridas e o desejo de aproveitar a paisagem e o clima. Me lembrei do que diz Deleuze sobre o desejo e a paisagem envolta desse desejo, como se fundem as duas coisas criando um conjunto de sensações. Eu sinto isso também, com a nossa amiga Lula que está na Colômbia, com alguns amigos no Chile, Argentina, Uruguai.

Mas te desejo força flor, ligue seu aquecedor e foca no trabalho. Que tenhamos em mente que há muitas ficções e idealizações de Brasil, e que encontrar aliados para pensá-lo é também pensar em tudo o que estamos falando… desigualdades, distâncias, mortes, desequilíbrio e saudade.

Abraços, beijos e até logo,

Amanda

Rio de Janeiro, 25 de outubro 2020

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